A minha música clássica não usa fraque

Foi em algum verão da década de 80.Estava eu em São Sebastião, lá no centrinho da cidade, numa daquelas lojas que vendem revistas, raquetes de frescobol e café.Cheia de gente, todo mundo falando alto e tal.

Do lado de fora, na calçada, tinha um piano velho, encostado na parede. Cheio de livros e revistas em cima dele, servia como apoio.

Sentado no banquinho, um invisível senhor, com jeitão de aposentado, cabelos brancos, bermuda e chinelo. Poderia muito bem ser alguém que estava passando e que resolveu dedilhar umas teclas.

Ele começou a tocar e, lembro do que aconteceu como se fosse hoje.

A música era um nada.

Era um mínimo de notas e acordes.

No meio daquele borburinho da loja, parecia que ele tocava, de propósito, o mais baixo possível. Tocava pra ele mesmo.

Seus dedos empurravam as teclas o mínimo necessário para produzir um som que chegasse aos seus ouvidos e de mais ninguém.

O andamento era o mais lento que eu já tinha ouvido. Era tão devagar que cada acorde ficava ecoando no ar até sumir completamente, antes do próximo.

A mão direita flutuava, a esquerda era forte.Ninguém ouvia.

Eu, que estava passando bem ao lado, felizmente, ouvi.

Um dos lamentos mais bonitos e um dos melhores “concertos” que já assisti.

Eu não conheço quase nada de música clássica, mas naquele dia, no cenário mais improvável, virei uma estátua e fiquei imóvel segurando minhas sacolinhas ao lado do velhinho por vários minutos.

No fim, nós dois ouviamos sua música mais alto que tudo, mais forte que tudo.

Bachianas Brasileiras nº 04, de Heitor Villa Lobos.

Coloquei um video de YT porque foi mais ou menos assim, que a ouvi pela primeira vez, essa maravilha.

A música é tão mágica que não precisa de nada de pompa para ser a coisa mais elegante do mundo.

Uma música gigante. E brasileira.

Updater: Wagner Brenner

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