- Update or Die!
- Posts
- Comic Sans Criminal
Comic Sans Criminal
Quer ficar bem na foto com Designers e Diretores de Arte? Faça alguma piada sobre a Comic Sans. Tire sarro. É fácil, é jogar para a torcida. Mas a verdade é que não tem nada de errado com a Comic Sans (pronto, já vejo moleskines voando em minha direção).
O problema está no uso excessivo e inadequado do Tipo.
Foi pensando nisso que Matt Dempsey criou o site www.comicsanscriminal.com. Para ver se você é mais um dos que cometem o crime de usar a Comic Sans de forma indiscriminada.
A Comic Sans foi criada por um designer da Microsoft, Vincent Connare (sabia que tinha o dedo da Microsoft… pronto, não resisti, também fiz piada com a Comic Sans; e com a Microsoft), em 1994 e é distribuída no pacote do Windows desde o Windows 95.
Então, você imagina.
É uma fonte que acompanha o Windows desde os tempos em que Apple só era fabricante de uns computadores diferentões usados por profissionais idem. Era praticamente a única Fonte mais “solta” no sistema operacional mais usado do mundo. Estava lá, no meio de outros Tipos mais caretas, no meio das Arial e Times da vida, levantando seu bracinho e pedindo para ser usada. E foi. E como foi. E é até hoje.
Aí que está o problema da Comic Sans. Sua ultraexposição. É tipo um Michel Teló das Fontes. E, além de aparecer em tudo quanto é canto, surge em lugares onde ela não é bem-vinda. A Comic Sans foi desenhada imitando as letras feitas à mão dos quadrinhos infantis. E é para isso que ela serve: para se comunicar com as crianças, para convites de festinhas infantis, para decorar bolos de aniversários, para colocar no trabalho da escola de crianças até, digamos, uns seis anos. Fora isso, fica parecendo alguém de sunga no centro de São Paulo.
Mas, como bom senso tipográfico não está presente em 99,99% da população mundial, ela acabou indo parar em placas de cabeleireiros, cartões de visitas de dentistas, fachadas de hospitais, menus de restaurantes, etc., etc., etc. E bota etc. nisso. Tipografia também é como um movimento cultural, como uma onda da moda. É preciso pensar no todo e não só na peça que está ali na sua frente.
Em 1992 o Clube dos Diretores de Arte de Nova York fez uma campanha contra o uso excessivo da Futura Extra Bold Condensed. Era época da primeira guerra do Golfo, e o Saddam Hussein estava presente na mídia americana de forma maciça. O material de protesto aproveitava o gancho e trazia o seguinte título: “imagine se o Saddam Hussein fosse uma Fonte?” E o texto convocava todos os designers e diretores de arte para boicotar “o Tipo mais usado na história recente da propaganda mundial, o Grande Satã do clichê tipográfico” (palavras deles).
Mas aí você pensa: e a Helvetica? Também não está em tudo quanto é lugar? A resposta é sim, evidentemente. Mas a diferença é que a Helvetica tem um desenho clássico, clean, e é neutra. Além de ter ótima legibilidade, principalmente em sinalizações e em pôsteres. E, assim como na moda, também na Tipografia o que é neutro enjoa menos e tem mais versatilidade e durabilidade, e, portanto, não fica datado. Parênteses: (é exatamente neste ponto que os críticos da Helvética se pegam: a Helvética é a Fonte sem face. Pois é, não dá para agradar a todos).
Parênteses 2: (fiquei meio mal se não colocasse nada da Helvética, afinal, tem exemplos das outras duas Fontes citadas neste post; portanto aí vai um videozinho sobre a história da Helvética)
Mas, voltando à Comic Sans. Não deixe de ver o site. É muito divertido, muito benfeito. E imprima a Juramento, que está na penúltima página e cole na parede em algum lugar bem visível. Fique tranquilo: não é feito em Comic Sans.
Updater: Romolo Megda
Reply